UM QUASE VIR A SER

(por Eliana Mora)

A vela ainda acesa
os sonhos [cartas na mesa]
e porquê essas palavras não fazem sentido agora?

Talvez o próprio caminhar de ontem
que se fundiu em luta e poesia
acabou por ver-se agora
como parte cruel de um dia

quase fogo
pintado à mão

cheio de níveis
perdas e ganhos
demoras
ausências
enganos

(a vida no vir a ser)

Eliana Mora, 30/04/2020 

Art_Marc-Chagall  
SEMPRE AS ENCRUZILHADAS

(por Eliana Mora)

.

A vida
de vez em quando
engravida uma ideia
dentro ou distante de nós
ela pode crescer
aumentar
transformar-se em objetivo
ou morrer
sem ar
sem ter onde pousar
em meio às névoas do tormento
da passividade
do cansaço
da cegueira
de um qualquer ser.

(ainda vivo)

.

Eliana Mora, maio/2016

Art_Paul Klee
FOTOSSÍNTESE

(por Eliana Mora)

.
Assim
olhos e ouvidos bem atentos
silenciosos à procura de assassinar tormentos
sem livro professor
testemunha ou juramento
vi do caule o mel
sangue de veia in natura
injetei nos nós do corpo
essa poção
.
(jurei que encontraria minha cura)
.
Eliana Mora, 3/2/2006

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Art_Francesco-de-Goya
OBRA DE ARTE E TEXTOS
(por Eliana Mora)
.

Um ar de adeus. Uma cor que combina com momentos assim, de perfeita ligação com algo que mora aqui, dentro. De repente, tudo se ‘lilariza’…e nós nos preenchemos daquela paisagem que [pudéssemos] não mudaria. Assim a arte nos encanta. Digo, porque a sensação que nos dá pode sim ser de adeus. Mas a beleza da pintura, do que pode ter passado na alma daquela criatura num momento desses, não tem como não emocionar…E vem a reflexão, e vem [por fim] uma espécie de relaxamento a se aliar à amplidão que aqui está mostrada. E – por fim – a sensação de paz. Pode ser mesmo que o pintor em questão, da terra dos ‘enormes’ pincéis, como Van Gogh, tenha tido mais sorte do que ele. A de carregar um mar lilás dentro de si, não como derradeira            pousada..Aplaudamos, pois.  

Eliana Mora, 06/05/2015

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Art_Johan Barthold Jongkind
SE EU APENAS PUDESSE
(por Eliana Mora)
.
Quando eu estiver só comigo
e a sombra dos desejos me abraçar
nem sei se ficarei a perguntar alguma coisa
ou se apenas sentirei o abraço
que poderia ali estar
Se eu apenas
o pudesse deixar acontecer
num momento qualquer de distração
.
[e de esquecer]
.
Eliana Mora, 03/09/2017

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Art_Ralph-Albert-Blakelock
Quase um diálogo que já existia
(por Eliana Mora)
.
A letra nua
levantou-se ali da tela
fez um sinal
de que ia finalmente
se expressar

foi quando de repente
enrubesceu
fez o caminho de volta
como quem fosse se esconder
[desatinar]

Jamais vira tal ação
e me peguei pensando
o que fazer?

Não, não precisa fazer nada por mim
– ela disse –
eu voltarei

Daí por diante senti
que poderia entendê-la mais
que bem

sentei-me e sosseguei
bem de repente

Agora
apenas ia me fazer

presente


Eliana Mora, 26/04/2016

Mistérios do Mar
.
Nasceu
ainda que não soubesse
de que estrelaNasceu
abriu-se para o mundo
enquanto o mundo dançava
em torno dela

Nasceu em minha porta
e partiu 
em direção ao mar
â grande aventura de cortar oceanos

Perdeu-se

Dela ninguém mais tem
notícias

Eliana Mora, 2020
Zero hora
.
Tiveste-me todo o tempo
o tempo todo.
mas meus ponteiros
agora
recusam-se
..
a te marcar
.
Eliana Mora, 2001
In_Mar e Jardim

OBRA DE ARTE E TEXTOS

.
Dentro em nós existe um local, um lugar bem pequeno, como fosse uma ilha. É ali que se concentram os sonhos que acalentamos. Ali estão os ‘apelos’ de nós para nós, os devaneios, os receios, as múltiplas formas de querer. E hoje o foco é nessa ‘ilha’. Daí o tom do local [da obra]. Meio rósea, nossa ilha de beleza. Pronto. Estou lá.

[El]

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